O "Doutor" alerta para o uso econômico da seleção brasileira e constata: o time está fora de forma e pode não passar da primeira fase da Copa do Mundo. Em entrevista ao Estado, Sócrates não poupa críticas à estrutura de poder do esporte brasileiro e diz que a CBF "não tem compromisso com o Brasil". O ex-jogador está na África do Sul na condição de embaixador de uma campanha em prol da educação no mundo. Eis os principais trechos da entrevista:
No Brasil, a CBF prometeu que usaria apenas recursos privados para construir estádios para 2014. Hoje, fala que precisa de dinheiro público. Como vê isso?
O Brasil tem a possibilidade de se mostrar com a Copa e a Olimpíada, além de melhorar sua infraestrutura. Mas a preocupação de quem gerencia esses eventos são os estádios. Deveríamos ter escolhido sedes com estádios já adequados ou que estivessem mais próximos do que pede a Fifa. Se querem um jogo na Amazônia, que façam em Belém, onde já há um estádio quase pronto. Agora, vão construir outro em Manaus. Ou seja, vamos ter um grande desperdício de recursos. O povo não concorda. Temos de ter a preocupação de acompanhar o processo. Não se começam as obras na hora certa para que as licitações não sejam adequadas e para que não haja controle do dinheiro. Isso é o que ocorreu na preparação para o Pan-Americano. A gestão dos recursos da Copa de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016 está nas mãos de quem não está comprometido com o Brasil.
Sobre a seleção brasileira, Beckenbauer e até os organizadores da Copa de 2010 se queixam de que Dunga descaracterizou o futebol brasileiro. Qual a sua avaliação?
Na verdade, estamos abrindo mão de nossa cultura. Há grandes jogadores que deveriam estar na seleção, como Ronaldinho Gaúcho, Alex, Ganso e Pato. Mas isso é o treinador. Infelizmente, ele (Dunga) optou por uma coisa distante da cultura do futebol do Brasil, que sempre se baseou na criatividade para se expressar.
Mas essa seleção pode trazer resultado?
Estou preocupado. O Brasil tem matéria-prima à vontade. Mas fisicamente está muito distante do ideal. Não sei se teremos tempo para entrar em forma. Estamos muito mal fisicamente. Kaká e Luis Fabiano não estão bem. Não sei se passaremos da primeira fase.
Durante a preparação, o Brasil foi jogar contra o Zimbábue, em uma partida amistosa utilizada para promover o governo do ditador local, Robert Mugabe. Qual sua avaliação sobre esse uso político da seleção?
Não se trata de uso político da seleção brasileira. É mesmo um uso econômico. A seleção virou um grande balcão de negócios, onde se vende jogos e jogadores a todo momento.
Se na sua avaliação o Brasil não é favorito para o título da Copa, quem é?
O torneio não mede quem é o melhor time do mundo. É uma espécie de feira de futebol. Se fosse um campeonato mais longo, eu apostaria na Espanha e no Brasil. Mas o Brasil chegou no momento errado. Em um mês, seria uma equipe mais forte. Sobre quem é favorito, tudo depende de como cada seleção chegará. A Holanda parece ser a seleção que está em melhor momento. Mas se Maradona der um time para Messi, também tem boas chances.